Ana Povo falou aos estudantes do Mestrado Integrado em Medicina sobre humanização, políticas públicas e cooperação internacional. O homólogo cabo-verdiano, Artur Veiga, alertou para a falta de especialistas no país.

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A Secretária de Estado da Saúde de Portugal, Ana Povo, conduziu uma conversa aberta na quarta-feira, 7 de outubro, na sala António Correia e Silva do Campus do Palmarejo Grande, dirigida aos estudantes do Mestrado Integrado em Medicina. Falou da evolução da prática médica e dos desafios atuais do setor, em especial a humanização do atendimento, a participação dos profissionais na definição das políticas públicas de saúde e a necessidade de maior cooperação internacional.

O encontro contou com a presença do Secretário de Estado da Saúde de Cabo Verde, Artur Veiga, e da coordenadora do curso, Antonieta Martins, que destacou a experiência internacional da convidada na área dos sistemas de saúde. Em nome da Reitoria, o Pró-Reitor para as áreas de Investigação e Extensão Universitária, Adilson Semedo, afirmou que a Uni-CV quer fazer da saúde um dos pilares do ensino e da investigação e um setor-chave na transferência de conhecimento para a sociedade.

Saúde em todas as políticas

Ana Povo defendeu que a saúde "está em todas as políticas" e deu como exemplo a onda de calor prolongada que Portugal viveu recentemente. A resposta, explicou, recai sobre o Ministério da Saúde, mas depende também de infraestruturas, habitação, cursos de água e árvores. Por isso, sublinhou a importância do conceito One Health (Uma Só Saúde) e de escolas médicas que reúnam diferentes saberes, e elogiou a integração do curso da Uni-CV nessa abordagem.

Para a governante, os profissionais de saúde de todas as áreas, incluindo a gestão e a administração hospitalar, são "as melhores pessoas para definir as políticas de saúde". Considerou que as políticas públicas de saúde são pouco ensinadas nos currículos de medicina e valorizou o contributo dos médicos de saúde pública, treinados para pensar a população e não apenas o doente que têm à frente.

Especialidades que os jovens médicos evitam

Ana Povo apontou como um dos principais desafios, em Portugal e noutros países europeus, o facto de as novas gerações não quererem escolher especialidades com muitas horas de trabalho, serviço de urgência e horários incómodos, como a medicina interna. Os jovens médicos, disse, procuram qualidade de vida, e admitiu não ter solução para tornar todas as especialidades atrativas. "Acho que nenhum país tem solução para isto."

Referiu ainda o stresse vivido pelos profissionais durante a pandemia, a que chamou fadiga pós-covid, o burnout, o aumento da procura de cuidados por uma população mais informada e a crescente complexidade dos doentes.

Inovação, cirurgia e formação contínua

Médica cirurgiã, Ana Povo apontou como desafio da cirurgia acompanhar o ritmo da inovação. Segundo explicou, um medicamento novo demora mais de dez anos a ser desenvolvido, enquanto um dispositivo médico para cirurgia leva entre um e dois anos. Na cirurgia robótica, os médicos só operam doentes depois de cumprirem um programa de formação, com horas na consola do robô e treino prático prévio. Defendeu também que os cirurgiões devem ensinar e deixar os mais novos operar.

Sugeriu à universidade que ofereça cursos de formação contínua, para que a atualização dos médicos não dependa sobretudo de congressos científicos, e referiu os simuladores e o treino em modelos animais e em cadáver como formas de aprendizagem antes de passar ao doente.

A coordenadora do curso manifestou preocupação com a saída de jovens profissionais para o estrangeiro. Ana Povo reconheceu o valor de sair, porque "às vezes é importante sairmos para darmos valor ao que temos", mas apelou à geração que se forma para ficar. "Se tendo a possibilidade, fiquem cá. Não há dinheiro que compense, não há trabalho que compense a nossa terra."

Números do Secretário de Estado cabo-verdiano

Artur Veiga retomou a proposta e confrontou os estudantes com a realidade do país. Perguntou se têm noção de quantos cirurgiões existem em Cabo Verde e de quantos são necessários, e lembrou que a falta se estende a várias especialidades.

Segundo disse, há cerca de dez a quinze anos, no auge, o número de cirurgiões no país não passou de seis ou sete. Hoje, há apenas um cirurgião seniores no Hospital Universitário Agostinho Neto. Deu ainda o exemplo da neurocirurgia, área em que o país viu sair profissionais que procuraram melhores condições noutros lugares.

O governante terminou com um apelo aos estudantes: "Pensem em Cabo Verde, porque Cabo Verde é vosso."

Conversa Aberta com a Secretária de Estado da Saúde de Portugal na Universidade de Cabo Verde