
Um novo artigo publicado na Geoheritage, revista científica do grupo Springer especializada em património geológico, conclui que a Ilha Brava, em Cabo Verde, reúne num território de apenas 64 km² uma diversidade geológica rara no Atlântico. A ilha conserva evidências de vários tipos de vulcanismo, desde as manifestações submarinas que a fizeram nascer até às erupções subaéreas, incluindo ocorrências de carbonatitos que fazem da Brava o único vulcão carbonatítico oceânico potencialmente ativo do mundo.
O estudo, intitulado "Brava Island (Cabo Verde, West Africa): Great Volcanic Geodiversity on a Tiny Ocean Island", é da autoria de Vera Alfama, docente e investigadora da Universidade de Cabo Verde e do Centro de Geociências da Universidade de Coimbra, e de Maria Helena Henriques, docente e investigadora do Departamento de Ciências da Terra e do Centro de Geociências da Universidade de Coimbra.
A investigação identifica e caracteriza 16 sítios de interesse geológico (os chamados geossítios), distribuídos pelas três principais unidades vulcanoestratigráficas da ilha: 12 correspondem a depósitos vulcânicos e quatro a formas de relevo. Estes locais documentam diferentes ambientes eruptivos, estilos de erupção e composições magmáticas e funcionam, no conjunto, como um arquivo natural da evolução vulcânica da Brava.
Entre os geossítios propostos contam-se as lavas em almofada da Ponta Nhô Padre, testemunho da fase submarina de crescimento da ilha, as piscinas naturais de Fajã d'Água, o cone de escórias do Alcatraz, o maar de Fundo Grande e a caldeira de Campo Baixo. Num edifício vulcânico com menos de três milhões de anos, cerca de 85% dos centros eruptivos são fonolíticos; os restantes são máficos e carbonatíticos.
Segundo as autoras, a Ilha Brava distingue-se mundialmente pela presença de carbonatitos extrusivos, um tipo de rocha vulcânica extremamente raro, conhecido em ambientes oceânicos apenas em Cabo Verde e nas Canárias. A Brava é a única ilha do arquipélago onde estas rochas ocorrem tanto em fácies intrusiva como extrusiva, e a fácies extrusiva é muito recente. É por isso que a ilha tem valor científico e patrimonial de referência internacional para a investigação em vulcanologia, para a geoeducação e para a avaliação de riscos vulcânicos.
Além da relevância científica, o trabalho aponta o potencial da Brava para o geoturismo, a educação em Ciências da Terra e a literacia das comunidades face a riscos naturais como escoadas de lava, fluxos piroclásticos, quedas de cinza e lahars. As autoras defendem que os 16 geossítios propostos são uma ferramenta importante para a conservação do património geológico e para uma melhor representação de África no inventário internacional deste domínio, ainda muito incompleto.
A cerca de 17 km, a ilha do Fogo mostrou, com as erupções de 1995 e de 2014-15, que o vulcanismo pode atrair geoturismo. É um caminho que a Brava, acessível apenas por barco a partir de São Filipe, pode agora percorrer com base científica. O passo seguinte é a classificação dos geossítios propostos, com aplicação direta na formação em riscos vulcânicos, no planeamento da proteção civil e no ordenamento do território numa ilha considerada potencialmente ativa.