seminrio-internacional--cincia-territrio-e-riscos-25_55295642645_o_8fa2c.jpg

A Universidade de Cabo Verde (Uni-CV) acolhe, de 26 a 29 de maio, no Campus do Palmarejo Grande, na Praia, o Seminário Internacional “Ciência, Território e Riscos - Descodificar os impactes das alterações climáticas no território”, um dos encontros científicos mais relevantes alguma vez realizados no país sobre riscos geomorfológicos e adaptação climática em territórios insulares. Durante quatro dias, a capital cabo-verdiana converte-se em ponto de encontro da comunidade científica da Macaronésia, reunindo investigadores, técnicos, universidades e entidades públicas dos Açores, das Canárias e de Cabo Verde.

Num discurso de fundo histórico e sociológico, o Pró-Reitor para a Investigação, Inovação e Extensão da Uni-CV, Professor Adilson Semedo, recordou que a vulnerabilidade em Cabo Verde foi descrita ao longo dos séculos pela tríade material “seca, fome e morte”, pelo trinómio espaço-social “isolamento, exploração e abandono” e ainda por uma dimensão psicológica feita de “insegurança, medo e incerteza”. Adilson Semedo lembrou que foi “somente após a Independência Nacional, a 5 de julho de 1975”, que os riscos deixaram de ser encarados como “fatalidades de um destino atroz”, abrindo espaço para uma leitura científica e racional do território.

“Ainda subsiste no nosso imaginário popular a crença de que a divindade é o único garante contra os riscos ambientais que nos cercam”, observou. “Contudo, as classes populares começam hoje a compreender as causas da escassez ou do excesso de chuvas, das erupções vulcânicas, das secas cíclicas, do aumento das temperaturas e os efeitos das condições atmosféricas na nossa saúde.”

Para o Pró-Reitor, este seminário “vem reforçar a conquista de um espaço para a ciência na nossa sociedade”, destacando “a necessidade imperativa de formar para comunicar a ciência”. Adilson Semedo defendeu que a articulação entre ciência fundamental, investigação aplicada e comunicação científica é “algo recente na nossa história social e reflete o amadurecimento científico da nossa sociedade”.

Vozes da Macaronésia: cooperação como única resposta possível

A sessão de abertura, realizada na Mediateca do Campus do Palmarejo Grande, contou com intervenções da Presidente da Faculdade de Ciências e Tecnologia e da Escola de Ciências Agrárias e Ambientais da Uni-CV, Professora Carina Fernandes, do representante da Universidade dos Açores e da Fundação Gaspar Frutuoso, Professor Rui Marques, do representante da Vice-Conselharia de Infraestruturas do Governo de Canárias, Luis Hernández Gutiérrez, e do representante da Secretaria Regional do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas dos Açores,  Paulo Amaral. A apresentação técnica do projeto coube ao seu Coordenador Geral, o arquiteto João Costa.

A Professora Carina Fernandes defendeu que “a ciência já não é apenas um ramo do saber reservado aos laboratórios; ela é uma ferramenta vital para proteger comunidades, orientar políticas e conservar os lugares que chamamos de casa”, apelando à coprodução de soluções “cientificamente sólidas e culturalmente sensíveis”.

Em representação das Canárias,  Luis Hernández Gutiérrez recordou que os três arquipélagos partilham “vulnerabilidades, desafios territoriais e riscos naturais” e enfatizou que “a resiliência não se improvisa: constrói-se com conhecimento, planificação, cooperação institucional e compromisso político”. Pelos Açores, o Professor Doutor Rui Marques destacou o carácter inovador do PRISMAC pela aposta na comunicação científica, enquanto Paulo Amaral, do Laboratório Regional de Engenharia Civil, reafirmou o compromisso de partilha de experiência em geotecnia e monitorização de vertentes.

O Coordenador Geral do projeto, arquiteto João Costa, propôs uma imagem mobilizadora: a Macaronésia como “laboratório vivo” e “espaço de excelência para pensarmos e inovarmos”, sublinhando que estes territórios “não são apenas ilhas dispersas no Atlântico” - são também produtores de conhecimento.

Quatro dias de ciência, capacitação e campo

A 27 de maio, o colóquio científico “Riscos Geomorfológicos: Impactes de Movimentos de Vertente nas Ilhas Vulcânicas” reúne comunicações sobre estudos de caso nos três arquipélagos, incluindo a análise dos impactes da Tempestade ERIN em São Vicente, a suscetibilidade a movimentos de vertente na Ilha Brava e a caracterização de unidades geotécnicas vulcânicas nas Canárias.

O dia 28 é dedicado à capacitação técnica em inventariação e cartografia de movimentos de vertente, algoritmos de análise de suscetibilidade e risco, formação para vigilantes de estradas e monitorização - competências críticas para os serviços de proteção civil e gestão de infraestruturas dos três arquipélagos. Transversalmente, o programa integra a ação “Comunicar Ciência”, orientada pela formadora Deisy de Pina. O seminário encerra a 29 de maio com um roteiro geológico e cultural pela ilha de Santiago, com paragens em São Domingos, São Lourenço dos Órgãos, Picos, Assomada e Serra Malagueta.

Galeria de fotografias

Don't have an account yet? Register Now!

Sign in to your account