Mobilidade académica leva estudantes de Educação Especial ao contacto direto com tecnologias de apoio, escolas inclusivas e modelos de referência em acessibilidade.

A inclusão não se aprende apenas nos livros. Aprende-se no contacto com as pessoas, com as escolas, com as tecnologias e com as respostas concretas que dão corpo ao direito de todos à educação. É com esse propósito que onze estudantes do Mestrado em Educação Especial - Domínio Cognitivo e Motor, da Faculdade de Educação e Desporto (FAED) da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), se encontram em mobilidade académica internacional em Leiria, Portugal, desde 23 de março, com regresso previsto para 8 de abril.
Promovida pela FAED, com o apoio da Câmara Municipal da Praia, esta é a terceira edição de um programa criado em 2021 e que vem consolidando uma ponte académica entre Cabo Verde e uma das instituições de referência na área da inclusão: o Instituto Politécnico de Leiria, através do seu Centro de Recursos para a Inclusão Digital (CRID), da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais.
A delegação cabo-verdiana integra estudantes provenientes de Santiago e São Vicente, bem como a Presidente da FAED, Aleida Furtado, a Delegada de Saúde de Santa Catarina, na ilha de Santiago, e a coordenadora da Equipa Multidisciplinar de Apoio à Educação Inclusiva de Santa Catarina. O programa combina formação académica, observação de práticas no terreno e contacto com modelos institucionais de acessibilidade e inclusão social.
A ligação entre a Uni-CV e o CRID não é recente. A Professora Célia Sousa, coordenadora do centro, é docente convidada do mestrado e orientadora de várias dissertações, tendo desempenhado um papel importante na aproximação entre as duas instituições. Citada no âmbito da mobilidade, Célia Sousa sublinhou que “a cooperação internacional é fundamental para promover soluções mais eficazes e sustentáveis, permitindo adaptar e replicar modelos de intervenção em diferentes contextos”.
Ao longo desta mobilidade, os mestrandos têm tido contacto direto com recursos tecnológicos e pedagógicos que marcam hoje a diferença no acompanhamento de crianças e jovens com deficiência. No CRID, exploraram comunicadores alternativos, softwares de acessibilidade e dispositivos adaptados para o atendimento de pessoas com necessidades específicas. Tiveram igualmente a oportunidade de conhecer livros multiformato acessíveis e o processo de edição desses materiais, num ambiente em que a inclusão é pensada não como exceção, mas como princípio estruturante.

O programa incluiu ainda visitas a escolas do ensino básico, jardins de infância e estabelecimentos do ensino secundário com respostas específicas para crianças e jovens com autismo, surdez, deficiência visual, multideficiência e outras condições que exigem acompanhamento especializado. Houve também espaço para a dimensão cultural da acessibilidade, com a visita a um museu inclusivo, uma sessão de cinema adaptado e um debate sobre cultura acessível, integrado nas comemorações dos 20 anos do CRID.
A comitiva participou igualmente no 15.º Encontro na Diferença, promovido pela CERCILEI, e foi recebida pela vereadora da Educação da Câmara Municipal de Leiria e pelo Vice-Presidente da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Politécnico de Leiria, num gesto que reforça o valor institucional da cooperação em curso.
Para a Presidente da FAED, Aleida Furtado, a experiência está a ser marcante. “A faculdade avalia positivamente a mobilidade. Os estudantes tiveram a oportunidade de conhecer o Centro de Inclusão Digital do IPL, manipularam os diferentes equipamentos e softwares específicos para o atendimento de pessoas com deficiência. Tiveram a oportunidade de explorar os livros multiformatos acessíveis e conhecer o processo de edição desses livros. Visitaram um museu inclusivo, escolas do ensino básico e jardins de infância com respostas a crianças com autismo e outras deficiências, bem como escolas do ensino secundário com respostas específicas para jovens com deficiência. Tiveram ainda a oportunidade de assistir a sessões de cinema com filmes inclusivos”, afirmou.
A responsável acrescentou que, pelo facto de a diretora do CRID ser docente no mestrado e orientadora de várias dissertações, os estudantes estão também a beneficiar de sessões de orientação individual dos respetivos trabalhos de investigação. “A experiência está a ser bastante enriquecedora. Os mestrandos estão muito contentes com esta experiência e oportunidade”, sublinhou.
Criado em abril de 2021, o Mestrado em Educação Especial - Domínio Cognitivo e Motor surgiu para responder a uma necessidade concreta do país: a escassez de profissionais especializados nesta área. Num sistema educativo que procura afirmar-se cada vez mais como inclusivo, esta mobilidade representa mais do que uma visita de estudo. Representa um investimento na formação de profissionais capazes de regressar a Cabo Verde com novos instrumentos, novas referências e uma compreensão mais profunda do que significa construir, na prática, uma escola para todos.