Miguel Montrond, natural de Chã das Caldeiras e investigador no Centro Nacional de Investigação de Turim, já extraiu 40 amostras de DNA e RNA das costas locais para criar as bases científicas de uma denominação de origem do vinho da Ilha do Fogo.

Em novembro de 2014, a lava do Pico do Fogo engoliu casas, vinhas e sonhos em Chã das Caldeiras. Miguel Lopes Montrond tinha acabado de iniciar a licenciatura em Agronomia na Universidade de Cabo Verde, com apenas mês de aulas, e o vulcão destruiu-lhe grande parte dos bens materiais. A erupção, porém, não lhe tirou a convicção. Reforçou-a. Doze anos depois, o jovem foguense que planta videiras desde os cinco anos de idade é o protagonista de uma investigação inédita que pode mudar o futuro da viticultura cabo-verdiana: a análise genética completa das castas de uva da ilha do Fogo.
Montrond foi selecionado pelo programa MAECI (Italian Ministry of Foreign Affairs and International Cooperation) para uma bolsa de investigação de nove meses, de novembro de 2025 a julho de 2026, com estágio no Centro Nacional de Investigação de Turim, em Itália. A bolsa enquadra-se no seu doutoramento em Gestão da Economia Rural para uma Agricultura Inteligente (GERAI), na Uni-CV, e o objeto de estudo é o DNA e RNA das videiras de Chã das Caldeiras, a ampelografia das castas locais e a identificação de variedades potencialmente autóctones que podem ser únicas no mundo.
“Senti que deveria esforçar-me mais para ajudar a minha localidade a ultrapassar os momentos difíceis e, sobretudo, investir em mecanismos de investigação para criar valor agregado à nossa agricultura e ao nosso enoturismo”, recorda o investigador sobre a decisão de regressar à mesma instituição onde se licenciou. “Escolhi de novo a Universidade de Cabo Verde. Sinto-me honrado por ter voltado à minha casa, à minha universidade.”
UMA INVESTIGAÇÃO EM TRÊS DIMENSÕES
O trabalho de Montrond divide-se em três eixos complementares. O primeiro é a análise virológica: identificar os vírus presentes nas videiras foguenses para prevenir a sua propagação, uma ameaça que já causou perdas devastadoras em regiões vitícolas da Europa e das Américas.
“Os vírus são responsáveis por grandes perdas na agricultura em todo o mundo, e em particular nas videiras. Temos vírus para os quais não existe tratamento até hoje, o que torna as plantas não produtivas e fontes de propagação de doenças”, explica o doutorando. “Trabalhamos na prevenção para evitar uma catástrofe de disseminação pelas parcelas vitícolas da região.”
O segundo eixo é a análise genética por microssatélites, marcadores de DNA que permitem identificar com exatidão cada variedade de videira, avaliar o seu potencial de adaptação às mudanças climáticas, otimizar tratamentos contra pragas e, sobretudo, detetar castas autóctones ainda não catalogadas em nenhum registo internacional. O terceiro é a ampelografia, a descrição morfométrica detalhada de cada casta através da observação dos seus órgãos vegetais, que permite a identificação no campo sem recurso a laboratório.
Montrond sublinha que este trabalho tem implicações práticas diretas: “Permite-nos ter rastreabilidade e autenticidade na identificação das nossas castas, combater fraudes no mercado de vinhos e, acima de tudo, ter dados confiáveis para criar produtos com denominação de origem.”
“Penso que existem variedades autóctones, o que nos permite ter um Vinho/Manecom 100% autóctone. São simplesmente vantagens e um valor agregado ao produto” - Miguel Montrond, doutorando em GERAI e bolseiro MAECI
ENTRE TURIM E A CALDEIRA DO VULCÃO
A investigação de Montrond desenrola-se entre dois mundos que não podiam ser mais distintos: o laboratório europeu de alta tecnologia e o terreno vulcânico onde o investigador cresceu. O trabalho foi organizado em três fases. Entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026, a equipa em Turim procedeu à extração do RNA das 40 amostras recolhidas nas vinhas do Fogo, e os primeiros resultados já estão disponíveis. A extração do DNA foi igualmente concluída, faltando a análise final e a classificação das castas.
Nesta fase, o doutorando encontra-se em Cabo Verde a conduzir o estudo ampelográfico de campo, aproveitando o período de desenvolvimento da vegetação verde das videiras em Chã das Caldeiras e arredores. Em meados de junho, regressará a Turim, possivelmente com novas amostras, para a fase final de análise de todos os dados recolhidos.
Sobre o centro de investigação italiano, Montrond não esconde o entusiasmo: “Existem todas as condições necessárias para este tipo de investigação. É um laboratório especializado nesta matéria, com uma equipa muito competente, muito disponível e sempre atenta aos procedimentos e aos resultados.” A escolha das amostras, por sua vez, reflete uma simbiose entre ciência formal e saber ancestral: “É feita com base nos meus conhecimentos técnicos, práticos e académicos, que venho desenvolvendo desde pequeno, bem como nos meus trabalhos académicos, a monografia e a tese de mestrado.”
O MANECOM E A QUESTÃO DA DENOMINAÇÃO DE ORIGEM
A vinha de Chã das Caldeiras é inseparável da identidade cultural da ilha do Fogo. O vinho Manecom, produzido artesanalmente nas encostas do vulcão, carrega uma história que ultrapassa as fronteiras do arquipélago. Mas até hoje não possui denominação de origem, uma lacuna que o trabalho de Montrond pode ajudar a preencher.
“Em todo o mundo existem vinhos tradicionais ou locais que são caracterizados pela origem da sua variedade genética, e isto traz um valor agregado ao próprio produto”, argumenta o investigador. “Podemos criar condições para termos um Manecom de melhor qualidade. Isto traria ganhos enormes para os viticultores locais, para a localidade e para a ilha. Iríamos enriquecer a nossa biodiversidade, o nosso vinho Manecom e, com certeza, ter mais visibilidade a nível nacional e internacional.”
O doutorando defende ainda que a identificação de castas autóctones abriria uma possibilidade singular: um Manecom produzido exclusivamente a partir de variedades genéticas nativas, sem equivalente noutras regiões vitícolas do mundo, um argumento de diferenciação e de valor que poucos vinhos podem reivindicar.
“Os conhecimentos adquiridos serão de vital importância para o desenvolvimento de Chã das Caldeiras, da ilha do Fogo e de Cabo Verde” - Miguel Montrond, sobre o regresso à Uni-CV para o doutoramento.
RETER O CONHECIMENTO EM CABO VERDE
A seleção pelo programa MAECI (Ministério dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação Internacional de Itália) representa um reconhecimento internacional do trabalho formativo da Uni-CV, mas levanta uma questão recorrente no ensino superior cabo-verdiano: como garantir que o conhecimento adquirido no estrangeiro regressa e se enraíza no país?
Montrond reconhece a pertinência da questão, mas enquadra-a num compromisso pessoal: “Antes de tudo, é um projeto pessoal que se vai consolidando com este doutoramento e projeto de investigação.” O doutorando defende a criação de infraestruturas laboratoriais permanentes na ilha do Fogo, “laboratórios de análises físico-químicas, fenólicas, sensoriais e aromáticas do vinho,” como condição essencial para fixar investigadores e criar um ecossistema científico autosustentável. “Existem formas de reter os quadros locais, e isto cabe a todos, ao governo, às instituições locais, às universidades e ao próprio investigador”, acrescenta.
O QUE O FUTURO RESERVA
Quando a bolsa terminar, em julho de 2026, Montrond espera ter concluído o catálogo completo de todas as castas existentes na ilha do Fogo, separando as variedades internacionais das autóctones. Os resultados alimentarão o processo de denominação de origem do vinho em diversas categorias de qualidade, a criação de um roteiro enoturístico com painéis sinalizadores nas parcelas vitícolas e, possivelmente, a fundação de um centro de conservação de castas.
O investigador pretende ainda publicar um livro que agregue todo o conhecimento recolhido ao longo da licenciatura, do mestrado e do doutoramento em viticultura, enologia e mercado dos vinhos cabo-verdianos. “Isto seria de vital importância para preencher as lacunas neste sector de extrema relevância para a ilha e para Cabo Verde”, afirma. Estão também previstos panfletos de divulgação enoturística e materiais de apoio aos viticultores de campo.