Investigação internacional identificou 27 compostos bioativos nas folhas de Psidium cattleyanum colhidas em Santo Antão, com propriedades antioxidantes, antimicrobianas e anti-envelhecimento que abrem portas a aplicações farmacêuticas e cosméticas. É a primeira vez que esta planta é estudada em profundidade a partir de espécimes cabo-verdianos.

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Um estudo científico publicado na revista internacional Molecules, editada pela MDPI e com revisão por pares, coloca a flora medicinal de Cabo Verde no mapa da investigação dermatológica mundial. O artigo, que conta com a coautoria do Professor Arlindo Rodrigues Fortes, docente da Escola Superior de Ciências Agrárias e Ambientais da Universidade de Cabo Verde, demonstra que as folhas de Psidium cattleyanum Sabine - o araçá ou goiavinha, como é conhecido no arquipélago - recolhidas na ilha de Santo Antão constituem uma fonte rica de compostos bioativos com aplicações promissoras no tratamento de doenças da pele.

A investigação, conduzida por uma equipa internacional liderada pela Universidade Médica de Lublin (Polónia), é a primeira a realizar uma caracterização fitoquímica detalhada e uma avaliação dermatológica abrangente do P. cattleyanum a partir de espécimes cabo-verdianos. Os autores sublinham que as condições ambientais únicas do arquipélago - solos, clima semiárido e ecologia insular - podem dar origem a um quimiotipo distinto, com bioatividades potencialmente novas ou reforçadas em comparação com populações da mesma espécie noutras regiões do mundo.

O que o estudo revelou

Através de cromatografia líquida de alta eficiência acoplada a espectrometria de massa (LC-MS), os investigadores identificaram 27 compostos nas folhas de araçá, com destaque para elagitaninos, ácidos fenólicos (derivados do ácido gálico e do ácido elágico) e glicosídeos flavonoides, nomeadamente derivados de quercetina e canferol. O conteúdo fenólico total revelou-se excepcionalmente elevado, 449,38 mg de equivalentes de ácido gálico por grama de extrato seco, superando os valores reportados para a mesma espécie colhida no Brasil e no Egito.

Os resultados biológicos são igualmente notáveis. O extrato foliar demonstrou forte capacidade antioxidante nos ensaios DPPH e ABTS, uma inibição da colagenase de 90,37%, ligeiramente superior ao controlo positivo, e uma inibição moderada da elastase (58,13%) e da tirosinase (61,09%), indicando um perfil anti-envelhecimento multialvo com ação contra rugas, perda de elasticidade e hiperpigmentação. A atividade antimicrobiana revelou-se eficaz contra bactérias associadas a patologias cutâneas, incluindo Staphylococcus aureus e Cutibacterium acnes, o agente principal do acne vulgar, sem antagonismo com antibióticos convencionais e com sinergismo parcial ou total em várias combinações testadas.

Da planta ao produto cosmético

A equipa foi ainda mais longe: formulou um creme tópico contendo o extrato foliar e submeteu-o a testes de estabilidade físico-química durante 90 dias. O creme manteve-se estável, sem separação de fases, com pH compatível com a fisiologia cutânea (6,33-6,43), textura homogénea e boa espalhabilidade, demonstrando a viabilidade da incorporação do extrato em produtos cosméticos ou dermatológicos.

O Professor Arlindo Rodrigues Fortes, docente da Escola Superior de Ciências Agrárias e Ambientais da Uni-CV e investigador no LEAF - Linking Landscape, Environment, Agriculture and Food do Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa, foi responsável pela identificação taxonómica do material vegetal e pela recolha das folhas em Santo António das Pombas, Santo Antão, em julho de 2023. A sua participação ilustra a crescente integração da Uni-CV em redes internacionais de investigação aplicada à valorização da biodiversidade cabo-verdiana.

O estudo sublinha que os usos tradicionais do araçá na medicina popular, desde o tratamento de diarreia e infeções até à cicatrização de feridas, encontram agora a validação científica nos fitoquímicos identificados e nos seus efeitos demonstrados. Os autores concluem que o extrato foliar de P. cattleyanum surge como candidato atrativo para incorporação em produtos cosmecêuticos ou em terapias herbais complementares voltadas para o rejuvenescimento cutâneo e o tratamento de doenças da pele, sublinhando a importância de conservar a flora medicinal de Cabo Verde para uma utilização sustentável deste recurso valioso.

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