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No Auditório 101 do Edifício 8 do Campus de Palmarejo Grande, o 1.º Encontro Amar no Espectro juntou na quinta-feira, dia 9 de abril, os profissionais de saúde e educação, estudantes, pais e membros da comunidade num diálogo sobre autismo que Cabo Verde precisava de começar a ter em voz alta. Promovido em parceria entre a Faculdade de Ciências e Tecnologia da  Universidade de Cabo Verde e a comunidade de pais Amar no Espectro, e enquadrado na alusão ao Dia Mundial da Consciencialização do Autismo (2 de abril), o evento marcou o que vários intervenientes descreveram como um passo na construção de respostas mais inclusivas no arquipélago.

A sessão de abertura trouxe à mesa três mulheres com papéis distintos mas convergentes: a Engenheira Zuleica Rodrigues, fundadora do Amar no Espectro e mãe de uma criança de três anos com diagnóstico de Transtorno do Espetro do Autismo; a Professora Deisa Semedo, ponto focal do projeto na Uni-CV; e a Professora Maria dos Anjos Lopes, Presidente da Faculdade de Ciências e Tecnologia.

A Presidente da Faculdade de Ciências e Tecnologia, Maria dos Anjos Lopes, enquadrou o encontro na missão da universidade como agente de transformação social. Lembrou que em Cabo Verde as dificuldades das famílias com crianças no espetro são agravadas por limitações no acesso a serviços especializados, pela escassez de informação estruturada e pelas fragilidades na articulação entre saúde, educação e ação social. Sublinhou que a universidade é um espaço onde se escuta a sociedade, se acolhe as suas necessidades e se constrói soluções em parceria, e que o envolvimento do grupo disciplinar de Enfermagem como ponto focal do evento ilustra como a academia pode estar ao serviço da comunidade.

“Como mãe de uma criança de 3 anos, eu não creio que Cabo Verde tenha condições para acolher a minha filha. Não creio que as escolas tenham condições. Não creio que o sistema de saúde tenha condições. Mas nós surgimos para dar força a todos os pais, para não desistirem das nossas crianças,” disse Zuleica Rodrigues, fundadora do Amar no Espectro

As palavras de Zuleica Rodrigues - diretas, sem filtro, carregadas da experiência de quem vive diariamente os desafios do autismo - deram o tom ao encontro. A fundadora do Amar no Espectro falou das famílias que lutam em silêncio, dos pais que desistem por exaustão, e dos que não têm cobertura do INPS para aceder a serviços especializados. Descreveu a iniciativa como o início de uma luta que é de todo o Cabo Verde, sublinhando que é um caminho possível lutar pela oportunidade de cada criança ser o que quiser no futuro.

A Professora Deisa Semedo recordou que o autismo em Cabo Verde ainda não é visto da forma mais comum e que o encontro representa um compromisso da universidade não apenas com a formação, mas com a investigação como ato de responsabilidade social, produzir conhecimento que ajude a garantir que todas as crianças no espetro sejam atendidas e tenham assegurados os seus direitos.

Uma universidade que se quer inclusiva tem de ser capaz de formar cidadãos conscientes das realidades que vão encontrar. Implica promover investigação científica e, sobretudo, estabelecer uma ligação efetiva com a comunidade, criando respostas concretas e sustentáveis.

O ponto central do encontro foi o painel "Autismo e Desenvolvimento: Construindo Caminhos Possíveis", moderado pela Dra. Francisca Freire, que reuniu três especialistas com perspetivas complementares: a psicopedagoga Nara Dornela, a neurologista Antónia Rodrigues (do Hospital Agostinho Neto) e a fonoaudióloga Deisy Rodrigues. As intervenções abordaram desde os sinais precoces do autismo até às estratégias de intervenção em linguagem e fala, passando pela avaliação neurológica, temas que, para muitas das famílias presentes na sala, representavam a primeira oportunidade de os ouvir discutidos por profissionais num espaço público.

O programa incluiu ainda a apresentação do projeto Amar no Espectro pela sua fundadora, Zuleica Rodrigues, ela própria pós-graduanda em Transtorno do Espetro do Autismo, Inclusão Escolar e Social, momentos culturais e uma sessão aberta de esclarecimento de dúvidas que prolongou o diálogo entre a plateia e os painelistas.

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