VIII Encontro da Rede Internacional de Desporto e Lazer em África reúne investigadores de vários países para três dias de debate sobre identidades, diásporas, colonialismo, género e memória desportiva.

A Universidade de Cabo Verde (Uni-CV) acolheu ontem, 28 de outubro, pelas 9h00, a sessão de abertura oficial do VIII Encontro da Rede Internacional de Desporto e Lazer em África (RIDLA), subordinado ao tema «Sonoridades, performances e dinâmicas de poder». A cerimónia teve lugar na Sala 101 do Edifício 8, no Campus do Palmarejo Grande, na cidade da Praia, dando início a três dias de reflexão científica sobre as relações entre desporto, cultura, identidade, memória e poder nas sociedades africanas e nas suas diásporas.
Até 30 de outubro, o encontro reúne investigadores e docentes de diferentes instituições académicas, num programa que combina comunicações presenciais e sessões exclusivamente online. A iniciativa promove o intercâmbio científico e a partilha de conhecimento sobre as dimensões históricas, sociais, culturais e políticas das práticas desportivas e das manifestações culturais em África.
Na sessão de abertura, o professor Crisanto Barros, membro da comissão organizadora, docente e investigador da Faculdade de Ciências Sociais, Humanas e Artes da Uni-CV, destacou a importância de compreender o desporto e as manifestações culturais para além do entretenimento. Segundo salientou, estas práticas constituem espaços de construção de identidades, transmissão de memórias, afirmação de pertenças, manifestação de resistências e reprodução ou contestação de relações de poder.
O docente realçou a diversidade temática do encontro, que abrange investigações sobre música e identidades diaspóricas, práticas culturais em contextos coloniais, políticas desportivas, futebol e masculinidades, relações de género, memória e património desportivo. Destacou ainda a importância do cruzamento de perspetivas para compreender as dimensões históricas, sociais, económicas e políticas destes fenómenos, bem como o papel da RIDLA na circulação do conhecimento e na criação de redes de colaboração científica.
Por sua vez, Augusto Nascimento, membro da comissão organizadora, docente e investigador da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, agradeceu à Uni-CV pelo acolhimento e pela colaboração na realização da iniciativa. Na sua intervenção, sublinhou a importância de aprofundar a investigação sobre as relações entre desporto, política, música e cultura, destacando o valor do diálogo entre investigadores de diferentes origens e contextos.
O investigador referiu ainda a relevância de alargar os estudos inicialmente centrados no desporto a outras dimensões das práticas culturais e performativas, reconhecendo o seu papel na afirmação identitária e na compreensão das dinâmicas sociais. A propósito de Cabo Verde, destacou também a expressão do orgulho identitário cabo-verdiano, visível nas manifestações de pertença à terra e à comunidade, incluindo através do futebol.
A abertura oficial contou igualmente com a intervenção da presidente da Faculdade de Educação e Desporto da Uni-CV, que defendeu uma abordagem do desporto e do lazer para além da competição e do entretenimento. Na sua comunicação, destacou a importância destas práticas na construção de identidades, na produção de sociabilidades e na preservação da memória coletiva, com particular atenção às experiências africanas e às suas diásporas.
Primeiras comunicações abordam música, colonialismo e futebol
O programa científico teve início com a sessão «Música, diásporas e identidades», dedicada às sonoridades diaspóricas, à produção musical cabo-verdiana e às práticas culturais enquanto formas de resistência e afirmação coletiva. Entre as comunicações apresentadas estiveram os trabalhos de João Mineiro, sobre as identificações coletivas entre Cabo Verde e Portugal; Carmem Barros, sobre mobilidade, saberes e novas dinâmicas da produção musical cabo-verdiana; e Carla Indira Semedo, sobre os coletivos de batuko/tchabeta em São Tomé e Príncipe.
Seguiu-se a sessão «Sonoridade, colonialismo e poder», que abordou as relações entre expressões musicais, corpo, lazer e estruturas coloniais, incluindo estudos sobre as performances Chopi no sul de Moçambique, a cultura expressiva na ilha de Santiago durante o período colonial tardio e os desafios da descolonização de arquivos musicais coloniais de Angola.
Durante a tarde, as sessões «Som e práticas culturais» e «Práticas desportivas, lazer e identidades» alargaram o debate à salvaguarda de práticas musicais, à memória cultural, às políticas desportivas e às formas de sociabilidade associadas ao desporto.
Nesta última sessão, destacou-se a comunicação de Crisanto Barros e Ângelo Pereira, da Uni-CV, sobre o papel do futebol na construção da masculinidade entre crianças da comunidade de São Francisco, na cidade da Praia. O programa incluiu ainda uma análise das políticas desportivas em Cabo Verde durante o período colonial e a Primeira República, bem como estudos sobre clubes de empresa no espaço colonial moçambicano e os espaços de lazer no contexto da guerra civil angolana.
Três dias de debate científico
A programação prossegue a 29 de outubro, com sessões exclusivamente online, dedicadas a temas como género e representação, futebol, raça, política e descolonização, música, memória, narrativas, performances e diásporas.
Entre os assuntos em debate encontram-se a presença feminina no desporto na Angola colonial, os percursos de cantoras de São Tomé e Príncipe, a história do futebol suburbano em Maputo, o pan-africanismo e o boicote africano ao Campeonato do Mundo de 1966, bem como as relações entre música, identidade e poder.
No dia 30 de outubro, os trabalhos centram-se no desporto, na memória e no património, assim como nas representações culturais, no lazer e nas relações de poder. As comunicações abordarão a história oral do desporto em África, os museus e o património desportivo, a fotografia no contexto colonial, as práticas culturais no período pós-independência e as relações entre lazer, sociedade e desigualdade.
O encontro termina com o lançamento da obra Muito mais do que um jogo: Futebol na cidade da Praia na época colonial, da autoria de Emanuel Charles D’Oliveira. A apresentação está prevista para as 14h00 do dia 30 de outubro e ficará a cargo de Adilson Semedo, docente e investigador da Faculdade de Ciências Sociais, Humanas e Artes da Uni-CV.
Com esta iniciativa, a Universidade de Cabo Verde reforça o seu papel na promoção da investigação científica e da cooperação académica internacional, valorizando o desporto e as manifestações culturais como dimensões fundamentais para compreender a história, as identidades e as dinâmicas sociais das sociedades africanas.
