Referência internacional em medicina intensiva, o Prof. Pedro Póvoa fechou o lançamento do PREPARA-M.CV com uma conferência magistral sobre como otimizar a terapêutica antibiótica, da primeira dose à suspensão segura, defendendo tratamentos mais curtos e decisões guiadas por critérios sólidos.

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Coube ao Prof. Dr. Pedro Póvoa, professor catedrático na NOVA Medical School e diretor da Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital São Francisco Xavier (Lisboa), encerrar o evento com a conferência magistral "Otimização da Terapêutica Antibiótica: do Início à Suspensão Segura". Apresentado pela Dra. Maria do Céu Teixeira como um dos cientistas mais influentes do mundo na área da medicina intensiva, reconhecido pelo trabalho pioneiro em biomarcadores de infeção, Póvoa começou por desarmar a plateia com uma confissão sobre a psicologia da prescrição.

"Nós, clínicos, prescrevemos antibióticos para tratar o nosso stress e o nosso medo de não tratar uma infeção ativa", afirmou. "Ao contrário de um anti-hipertensor ou de uma insulina, não conseguimos ver a ação imediata do antibiótico. Ele não trata a febre nem a tosse; mata bactérias, mas esse efeito é invisível no imediato. Por isso, tendemos a prolongar terapêuticas sem critérios sólidos."

A partir do caso clínico de Jorge, 63 anos, internado por pneumonia hospitalar e admitido em cuidados intensivos com insuficiência renal aguda, o conferencista percorreu os princípios da farmacocinética e da farmacodinâmica. Defendeu uma regra de ouro frequentemente ignorada: a primeira dose de um antibiótico nunca se ajusta à função renal, porque a eficácia inicial depende de atingir rapidamente uma concentração acima do limiar mínimo, e reduzi-la por receio de toxicidade apenas perpetua a subdosagem e a indução de resistências.

Póvoa detalhou ainda a otimização da administração, os beta-lactâmicos, sendo tempo-dependentes, beneficiam de infusão prolongada ou contínua em vez de bólus rápidos - e alertou para os limites das fórmulas de estimativa da função renal em situações de insuficiência aguda, recomendando a medição direta da clearance de creatinina. Sublinhou a importância de reavaliar o doente às 48-72 horas, lendo os biomarcadores pela sua variação (cinética) e nunca por valores absolutos, e lembrou que a taxa de erro de diagnóstico em infeções graves ronda os 30%.

O orador insistiu na descalação, estreitar o espetro assim que chegam os resultados microbiológicos, e advertiu para o perigo das bactérias produtoras de AmpC, que podem parecer falsamente sensíveis às cefalosporinas in vitro, mas expressam resistência in vivo. A mensagem mais disruptiva, porém, foi sobre a duração: grandes ensaios clínicos demonstram que ciclos curtos, de sete a oito dias, são tão eficazes quanto os tradicionais 14 dias em pneumonias nosocomiais e infeções intra-abdominais complicadas. "A redução da exposição ao fármaco diminui drasticamente a emergência de estirpes multirresistentes", concluiu, desmontando a ideia, sem base científica, de que os ciclos se medem em semanas.

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