
Encontro académico decorre de 25 a 27 de maio, no Campus do Palmarejo Grande, reúne investigadores e escritores de vários países da CPLP e tem encerramento a cargo de Dino d'Santiago, Embaixador da Leitura de Cabo Verde.
A Universidade de Cabo Verde (Uni-CV) abriu na segunda-feira, no Auditório 101 do Edifício 8 do Campus do Palmarejo Grande, o III Simpósio Internacional de Literatura Infantil e Juvenil de Cabo Verde, um encontro que reúne, até 27 de maio, investigadores, escritores, docentes, estudantes e mediadores de leitura de vários países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Subordinada ao tema “Literatura Infantil e Juvenil em Língua Portuguesa: Infâncias, Circulações e Poéticas em Contextos Plurais”, a iniciativa propõe três dias de reflexão interdisciplinar sobre infância, leitura, língua portuguesa, oralidade e formação de leitores.
Organizado pelo Leitorado Guimarães Rosa / Instituto Guimarães Rosa na Uni-CV, em coorganização com a Cátedra Eugénio Tavares de Língua Portuguesa, o Simpósio coincide, simbolicamente, com as celebrações do Dia de África, marca que atravessou todas as intervenções da sessão de abertura.
Na presidência da mesa estiveram a Pró-Reitora para os Estudantes, Cultura Académica e Vida Universitária, Elvira Correia, em representação da Reitora Astrigilda Silveira, em missão no primeiro Fórum de Reitores de Universidades Africanas, em Brasília, e o Pró-Reitor para a Investigação, Inovação e Extensão, Adilson Semedo. Integraram ainda a mesa a Presidente da Faculdade de Ciências Sociais, Humanas e Artes, Aleida Furtado; o Diretor Executivo do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), João Neves; o Ministro-Conselheiro da Embaixada do Brasil em Cabo Verde, Roberto Lopes Arrais; e a Diretora da Cátedra Eugénio Tavares de Língua Portuguesa, Fátima Fernandes.
Leitura como exercício de cidadania
Ao declarar formalmente aberto o Simpósio, Elvira Correia sublinhou que a Uni-CV se transformará, nos próximos dias, no “epicentro de um debate vital sobre o território da palavra escrita dedicada a moldar o futuro”. Citando Roland Barthes, a Pró-Reitora afirmou que “a literatura não permite caminhar, mas permite respirar” e que, para as crianças e jovens cabo-verdianos, “essa respiração é o próprio oxigénio da emancipação intelectual”. Evocando a escritora Dina Salústio, lembrou que, ao oferecer às crianças histórias que reflitam a sua matriz identitária, “estamos a salvá-las do esquecimento de si mesmas”.
Pelo Pró-Reitor Adilson Semedo, a promoção da leitura desde a primeira infância é “um elemento-chave no setor da educação para a transformação social, económica e o desenvolvimento sustentável do país”. O responsável defendeu o papel da universidade pública no combate à exclusão social através do acesso ao livro e alertou para a “incongruência” de o estudante chegar ao ensino superior sem ter interiorizado, em casa e na escola, as disposições que tornam a leitura uma prática naturalizada.
Na intervenção de abertura, Fátima Fernandes, Diretora da Cátedra Eugénio Tavares, foi mais longe e nomeou as geografias da desigualdade leitora em Cabo Verde: “Falamos de lugares como Tarrafal de Monte Trigo, no Porto Novo; Paul; Nossa Senhora do Monte, na ilha da Brava; Tinteira, Cutelo Alto, Cova Figueira e Pai António, na ilha do Fogo”, onde, disse, “famílias carenciadas não podem colocar a aquisição de livros no orçamento mensal”. Defendeu a urgência de “bibliotecas vivas, que valorizem a oralidade, acolham a diversidade linguística e promovam um letramento contracolonial”.
Recordou ainda que a Uni-CV criou, há dez anos, as unidades curriculares de Leitura e Educação Literária e de Literatura Infanto-Juvenil de Língua Portuguesa, na licenciatura em Estudos Cabo-Verdianos e Portugueses, retomando uma tradição iniciada em 2005/2006 na então licenciatura em Educação de Infância.
CPLP, política pública do livro e cultura digital
Em representação do IILP, João Neves anunciou o lançamento oficial, em coincidência com a abertura do Simpósio, do curso “Fundamentos da Literatura Infantil e Juvenil”, na plataforma de formação especializada do Instituto. Com 50 vagas, o curso recebeu o dobro de candidaturas, oriundas de oito países de língua portuguesa e de Macau. O diretor executivo destacou também o projeto “Caixa de Autores de Língua Portuguesa”, que reúne nove obras de ficção dos países da CPLP e de Macau, e referiu o apoio já concedido a mais de 15 projetos de infraestruturação de bibliotecas escolares e comunitárias no espaço da CPLP.
Em ano em que se assinala o 30.º aniversário da CPLP, João Neves lembrou que “esta comunidade se cumpre melhor quando faz pensar os seus cidadãos mais jovens” e quando trata “a literatura como património, memória, projeção de futuro e cultivo da liberdade”.
Pela Embaixada do Brasil, o Ministro-Conselheiro Roberto Lopes Arrais alertou para o risco de “terceirização cognitiva” num tempo de telas, dispositivos móveis e inteligência artificial: “lê-se menos, escreve-se menos, interpreta-se menos, elabora-se menos e, enfim, pensa-se menos”. Saudou o facto de o Simpósio discutir a literatura infantil e juvenil a partir de múltiplos ângulos, incluindo as oralidades, a tradução e a cultura digital contemporânea, e reafirmou o compromisso da diplomacia cultural brasileira, através do Instituto Guimarães Rosa, com a promoção da língua portuguesa.
A Presidente da Faculdade de Ciências Sociais, Humanas e Artes, Aleida Furtado, sublinhou o papel estratégico do encontro na formação de professores “capazes de promover competências de leitura, pensamento crítico, criatividade e consciência cultural”, e encerrou a sua intervenção com Amílcar Cabral: “as crianças são a razão da nossa luta e as flores da nossa revolução”.
Programa: três dias, onze eixos temáticos
O primeiro dia do Simpósio integrou a Conferência de Abertura “Estratégias de leitura: percurso pessoal, histórico e investigativo”, proferida pela Professora Renata Junqueira de Souza (UNESP), seguida do Painel 1 “Com a palavra o escritor cabo-verdiano”, que reúne Marilene Pereira, Vera Duarte Lobo de Pina, Maria do Céu Baptista, Dai Varela, Madalena Brito Neves e Dina Salústio.
Terça-feira, 26 de maio, o programa centra-se em educação literária, políticas públicas do livro, mediação de leitura e vivências literárias na infância, com destaque para o Painel 3 “Poesia como linguagem para crianças”, que encerra com um momento de reconto oral de contos tradicionais cabo-verdianos, apresentado por Linda Inês, estudante do curso de Estudos Cabo-Verdianos e Portugueses.
Quarta-feira, 27 de maio, decorrem, da parte da manhã, sessões de comunicação em simultâneo distribuídas por nove salas da Uni-CV, abrangendo os onze eixos temáticos do Simpósio, da literatura da CPLP às oralidades, das práticas pedagógicas decoloniais às tecnologias digitais, das literaturas da diáspora à tradução, cidadania e poéticas da infância. À tarde, realizam-se as Conferências 7 e 8, proferidas pelos professores Arlindo Barreto e Saidu Bangura, ambos da Uni-CV, dedicadas, respetivamente, à leitura de textos literários e ao efeito dos conflitos armados nas crianças, com particular enfoque no caso da Serra Leoa.
Dino d'Santiago encerra o Simpósio
A Conferência de Encerramento será proferida por Dino d'Santiago, cantor, escritor e Embaixador da Leitura de Cabo Verde, sob o tema “A leitura como caminho de liberdade, identidade e futuro”. O momento final contará ainda com café festivo, atuação musical, poesia pelo Clube de Literatura e Teatro da Uni-CV, homenagens e palavras finais do Leitorado Brasileiro.
Com esta terceira edição, o Simpósio Internacional de Literatura Infantil e Juvenil de Cabo Verde consolida-se como um dos mais relevantes espaços académicos dedicados à literatura para crianças e jovens no espaço da língua portuguesa, e reafirma a Uni-CV como polo de reflexão sobre a leitura enquanto direito, identidade e horizonte de futuro para as novas gerações cabo-verdianas e africanas.