carlos_lopes_7b4cb.jpg

O Professor Carlos Lopes defendeu, na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), que o mundo atravessa uma rotura estrutural na ordem internacional e que o “fim das certezas multilaterais” pode representar, para África, não apenas uma ameaça, mas também uma janela de oportunidade para imaginar e construir alternativas. A leitura foi apresentada esta segunda-feira, 26 de janeiro de 2026, no Centro de Convenções, na conferência magistral “A África e o fim das certezas multilaterais”, proferida no quadro da cerimónia em que o académico foi distinguido com o Prémio Amílcar Cabral da Uni-CV, na sua primeira edição.

Segundo o conferencista, a previsibilidade associada ao multilateralismo clássico — baseado em regras comuns, instituições estáveis e consensos negociados — tem sido substituída por um ambiente de fragmentação, competição e instabilidade estratégica, em que as normas são aplicadas de forma desigual e, por vezes, contornadas pelos próprios atores que as desenharam. Nesse contexto, disse, “a disrupção deixou de ser exceção e passou a ser condição permanente” do sistema internacional.

Apesar do cenário de incerteza, Carlos Lopes sustentou que África entra nesta fase de transformação sem estar excessivamente investida na preservação da ordem anterior, historicamente marcada por assimetrias que penalizaram o continente — desde regras comerciais desfavoráveis e regimes de dívida restritivos até à marginalização tecnológica e política. Por isso, argumentou, há “menos a perder” com a erosão dessas certezas e, paradoxalmente, “mais espaço para imaginar alternativas”, desde que o continente converta margem de manobra em capacidade estruturante.

Na conferência, o laureado apontou a economia política global e o comércio internacional como um dos domínios onde a mudança se tornou mais evidente: num ambiente de tarifas estratégicas, subsídios industriais e medidas associadas à segurança económica e energética, o comércio é cada vez mais instrumento geopolítico e menos uma promessa de liberalização progressiva. Para África, advertiu, permanecer como exportador de matérias-primas num sistema mais protecionista significaria aceitar uma posição estruturalmente vulnerável. Em alternativa, defendeu, o continente pode aproveitar este contexto para fortalecer políticas industriais, aprofundar a integração regional e reposicionar-se nas cadeias de valor.

Carlos Lopes destacou ainda o papel da Área de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA) como exemplo de resposta estratégica africana num momento de fragilização do multilateralismo tradicional, reforçando mecanismos próprios e ampliando o mercado interno como base de competitividade.

A tecnologia foi outro eixo central da intervenção. O académico alertou que áreas como inteligência artificial, computação avançada, biotecnologia e digitalização estão a redefinir relações de poder e que as tecnologias “não são neutras”, por incorporarem escolhas políticas e interesses económicos. Para evitar que desigualdades se aprofundem, defendeu a necessidade de África participar na definição de normas, investir em capacidades próprias e assumir uma governação tecnológica mais assertiva.

No plano demográfico, Carlos Lopes sublinhou que África dispõe da população mais jovem do planeta e de uma força de trabalho em crescimento, frequentemente tratadas como risco — sobretudo pela lente da migração e da segurança — em vez de oportunidade para estratégias de codesenvolvimento baseadas em mobilidade, investimento produtivo e desenvolvimento humano.

No fecho, o conferencista afirmou que reformar o multilateralismo não significa restaurar o passado, mas repensar objetivos, instrumentos e critérios de legitimidade. Para África, acrescentou, a escolha é estratégica: limitar-se a adaptar-se pragmaticamente à nova desordem global ou assumir um papel mais ambicioso, contribuindo para um multilateralismo orientado para resultados, inclusão e justiça estrutural.

“O fim das certezas multilaterais não deve ser entendido como um colapso terminal, mas como um momento constitutivo”, concluiu, defendendo que o continente pode deixar de ser objeto da reorganização global e tornar-se sujeito ativo da sua definição, se fortalecer cooperação regional e investir em capacidades económicas, políticas e tecnológicas.

Don't have an account yet? Register Now!

Sign in to your account