Pagamentos, endereços e transportes foram apontados como principais entraves ao e-commerce em Cabo Verde, num debate na Uni-CV

O Ministro da Economia, Comércio, Indústria e Transição Digital, António Baptista, defendeu ontem, 9 de outubro, a criação de uma plataforma nacional de comércio eletrónico que reúna pagamentos, acesso ao mercado e logística, e apelou à partilha de infraestruturas entre as empresas. O governante falava no encerramento do debate da conversa aberta “E-commerce - Da Academia à Indústria”, realizada na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV) em comemoração do Dia Mundial dos Correios.
“Somos muito pequenos, deveríamos ter um site nacional de e-commerce onde todos estejam integrados”, afirmou, sem prejuízo de cada empresa manter o seu site especializado. António Baptista sugeriu também armazéns partilhados e criticou a duplicação de infraestruturas. “Só com partilha de infraestruturas e de serviços poderemos ser eficientes e competitivos neste mercado mundial”, sublinhou.
O Ministro quer um ambiente mais previsível, que “não dependa de quem conhecemos”, e defendeu um sistema de pagamento único, reconhecido internacionalmente. Anunciou ainda que o Governo vai avançar com feiras digitais e diversificar a rede de entregas, e lembrou que um projeto financiado pelo Banco Mundial está a preparar a estratégia de dados.
Durante o debate, o governante lembrou que, a partir de janeiro, as viagens de barco entre ilhas passam a custar 500 escudos e as de avião 5000 escudos, e questionou os oradores sobre o impacto destas tarifas no comércio eletrónico.
E-commerce vale até 4% do PIB
A partir de Portugal, Alberto Pimenta, dos CTT e presidente da AICEP, estimou que o comércio eletrónico represente entre 3% e 4% do PIB cabo-verdiano, cerca de metade do nível português. Segundo os dados que compilou, a maior parte dos consumidores do arquipélago compra produtos importados através de plataformas chinesas, americanas, portuguesas e brasileiras.
Para contornar a falta de moradas, o responsável propôs uma “morada digital” associada ao telemóvel, com entrega em lojas, supermercados ou lockers. Os CTT têm mais de 1500 lockers em Portugal e desenvolveram os que os Correios de Cabo Verde já instalaram. Alberto Pimenta aconselhou ainda as empresas nacionais a venderem também nos grandes marketplaces internacionais, porque “o e-commerce é um mercado global”.
Código postal aberto a startups
O Eng.º David Gomes, consultor da ARME, explicou que o código postal nacional tem sete dígitos e foi feito pelo regulador para ser aberto a startups e marketplaces. Defendeu uma plataforma única de endereçamento nacional, útil também para a polícia, os bombeiros e a justiça, e deu o exemplo do Gana, onde uma plataforma comum entre operadores postais e motoboys já somava 136 000 entregas.
O antigo presidente da ANAC revelou que está em cima da mesa a liberalização total do mercado postal e que os cacifos vão ser regulados. Apontou também a impossibilidade de receber pagamentos por PayPal em Cabo Verde e a falta de um acordo tributário com os Estados Unidos como travões à venda para o exterior. “A regulação não é para bloquear, é para inovar e desenvolver”, frisou.
Dois anos para pôr pagamentos a funcionar
A Administradora da M&J Tech, representante da Samsung no país desde 2019, Jaqueline Carvalho, contou que a empresa passou de 15 para 30 trabalhadores e que o comércio eletrónico já representa cerca de 5% das vendas. A integração dos pagamentos com a SISP demorou quase dois anos a funcionar sem falhas, e o envio de um frigorífico para São Vicente pode custar 12 contos e levar 15 dias.
A empresa usa dois assistentes virtuais com inteligência artificial, a Mia e o Rafael, que atendem clientes 24 horas por dia. A administradora revelou ainda que o site foi pirateado na última quadra festiva, o período de maior procura. “Quem incorpora hoje a inteligência artificial ganha produtividade”, disse aos estudantes.
Informais fora do digital
O fundador e CEO da CVBuy, Amilson Garcia, chamou a atenção para os empreendedores informais, que não conseguem aceder ao crédito por falta de histórico económico. A empresa propõe digitalizar esses negócios e partilhar o histórico com bancos parceiros. Em parceria com o Banco Interatlântico, a CVBuy já permite pagar compras em até 24 prestações, ou 48 nos produtos mais caros.
O jovem empreendedor defendeu uma estratégia nacional de empreendedorismo e transição digital e programas públicos de garantias. Através do programa Elevate, que tem protocolo com a Uni-CV, estudantes trabalham como agentes de vendas à comissão.