
A presidente da Escola de Negócios e Governação da Universidade de Cabo Verde, Zenaida Leite, defendeu que o futuro da comunicação e do marketing dependerá menos da inteligência artificial, isoladamente, e mais da capacidade humana para orientar a tecnologia de forma ética e responsável. A posição foi apresentada na abertura do Fórum COMARP Cabo Verde 2026, realizado no dia 23 de julho, no Campus do Palmarejo Grande, na Cidade da Praia.
Promovido sob o tema “A transformação digital e as novas fronteiras da comunicação e do marketing”, o encontro reuniu profissionais, académicos, estudantes, gestores e representantes de instituições públicas e privadas para debater o impacto das novas tecnologias no setor. A iniciativa marcou a primeira realização do Fórum COMARP em Cabo Verde e integrou o processo de expansão da plataforma, criada em Moçambique em 2023, para outros Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.
“Estamos verdadeiramente preparados?”
No seu discurso, Zenaida Leite começou por questionar se os profissionais e as organizações estão preparados para atuar num mundo em que as máquinas já escrevem textos, produzem imagens e vídeos, respondem a clientes e analisam milhões de dados em poucos segundos.
Para a presidente da Escola de Negócios e Governação, esta transformação já não pertence ao domínio das previsões. A inteligência artificial está a alterar as campanhas de marketing, a personalização das experiências de consumo, a produção de conteúdos e a relação das organizações com os seus diferentes públicos.
“Esta não é uma questão para o futuro; é a realidade do presente”, afirmou, acrescentando que a evolução tecnológica levanta o desafio de preservar a autenticidade e o significado das marcas.
Zenaida Leite sustentou, porém, que nenhuma tecnologia poderá substituir integralmente capacidades como a compreensão das emoções, a interpretação de contextos, o pensamento crítico, a criatividade e o exercício da ética.
A responsável sintetizou esta posição ao afirmar que “o futuro não será determinado pela inteligência artificial em si, mas sim pela inteligência humana capaz de a orientar para o bem comum”. A declaração esteve também entre os principais destaques da cobertura pública do encontro.
Universidades chamadas a preparar novas competências
No centro da intervenção esteve igualmente o papel do ensino superior na formação de profissionais capazes de acompanhar mudanças tecnológicas aceleradas.
Zenaida Leite considerou que formar para o século XXI exige mais do que transmitir conhecimentos teóricos. As universidades devem desenvolver competências digitais, pensamento crítico, criatividade, capacidade de resolver problemas complexos e disponibilidade para uma aprendizagem contínua.
Segundo a dirigente, muitos dos atuais estudantes poderão vir a exercer funções que ainda não existem, utilizando tecnologias em desenvolvimento e procurando respostas para problemas ainda desconhecidos. Esta realidade exige uma academia aberta ao mundo, próxima das empresas, ligada à investigação e comprometida com a inovação.
A presidente da Escola de Negócios e Governação destacou, neste contexto, a importância de encontros que aproximem a experiência profissional do conhecimento produzido nas universidades.
“Eventos como o Fórum COMARP são espaços onde o conhecimento académico encontra a experiência profissional, onde diferentes gerações aprendem umas com as outras, onde as empresas encontram novos talentos e onde surgem ideias, parcerias e oportunidades”, declarou.
Tecnologia deve elevar o valor humano
Na parte final do discurso, Zenaida Leite distinguiu duas formas de adoção da tecnologia: uma orientada apenas para o aumento da produtividade e outra destinada a elevar o valor humano dentro das organizações.
Na sua perspetiva, as ferramentas, os algoritmos e as plataformas continuarão a mudar, mas a confiança, a credibilidade, a ética, a criatividade e a capacidade de construir relações sólidas permanecerão como ativos essenciais.
A dirigente reiterou, por isso, a necessidade de os profissionais aprenderem a verificar informações, pensar criticamente e utilizar as ferramentas digitais de forma responsável.
O Fórum COMARP reuniu cerca de 150 participantes provenientes de Cabo Verde e de outros países africanos de língua portuguesa. A programação incluiu painéis, apresentações de experiências e momentos de estabelecimento de contactos profissionais.
Além de Zenaida Leite, participaram na sessão de abertura a representante do COMARP Cabo Verde, Lúcia Brito; o secretário-geral da Coligação da Juventude PALOP, Rodilso Delgado; e o fundador do COMARP, Edson Rufai. As intervenções defenderam maior cooperação entre os países lusófonos, formação contínua dos profissionais e aproximação entre academia e mercado.