Sessão organizada pelo Grupo Disciplinar de Ciências Jurídicas e Políticas da Escola de Negócios e Governação (ENG) da Uni-CV trouxe ao Campus do Palmarejo Grande uma análise aprofundada do sistema de plea bargaining nos Estados Unidos, com exemplos reais da máfia nova-iorquina, da lei RICO e da cooperação internacional na recuperação de ativos financeiros.

55145838223_63ec7831ff_k_47f98.jpg

Nos Estados Unidos, 98% dos processos criminais federais são resolvidos sem nunca chegarem a julgamento. O número, tão impressionante quanto revelador, foi o ponto de partida para uma palestra que prendeu a atenção de estudantes e docentes no Auditório 202 do Edifício 8 do Campus do Palmarejo Grande, na  sexta-feira, 13 de março. Organizada pelo Grupo Disciplinar de Ciências Jurídicas e Políticas da ENG Universidade de Cabo Verde, a sessão sobre "O Sistema de Justiça Americano e os Acordos de Confissão" ofereceu um mergulho nos mecanismos de negociação penal que sustentam o sistema judicial mais influente do mundo,  e que contrastam radicalmente com a prática jurídica cabo-verdiana.

O orador explicou que os procuradores norte-americanos detêm um poder discricionário sem paralelo em Cabo Verde, articulado em três eixos: podem negociar a natureza da acusação,  optando por um crime menos grave mesmo quando têm provas do mais grave, podem negociar o número de crimes incluídos na acusação, retirando acusações adicionais, e podem negociar a própria pena, reduzindo significativamente os anos de prisão em troca da colaboração do arguido. É esta arquitetura que permite o funcionamento do sistema de plea bargaining, apresentado como solução pragmática para um aparelho judicial que, de outro modo, ficaria paralisado.

Há certos casos que, sem uma testemunha colaboradora, simplesmente não podem ser resolvidos. Ter um arguido como testemunha é fulcral: ele sabe como o crime foi planeado, quem participou e onde estão as provas.

O orador sublinhou que cerca de um terço dos arguidos que celebram acordos tornam-se testemunhas colaboradoras - uma ferramenta que descreveu como essencial nos crimes complexos, onde o acesso a informação interna sobre o planeamento, os participantes e a localização das provas pode ser determinante para desmantelar redes criminosas inteiras.

O caso que derrubou a máfia de Nova Iorque

O orador ilustrou o funcionamento dos acordos com um dos casos mais célebres da justiça americana. John Gotti, chefe da máfia de Nova Iorque, foi processado três vezes pelo governo federal e absolvido nas três. O FBI continuou a investigar e conseguiu reunir provas contra o subchefe, Sammy Gravano, que aceitou colaborar em troca de uma pena de apenas 5 anos de prisão - apesar de ter admitido envolvimento na morte de 19 pessoas. O resultado: a condenação de Gotti e de mais 35 mafiosos. Gravano recebeu proteção para si e para a família, mas acabou por abandonar voluntariamente o Programa de Proteção de Testemunhas, voltou a cometer crimes e foi condenado a 20 anos sem qualquer acordo.

O caso provocou um debate vivo na sala sobre os limites éticos dos acordos. O orador não fugiu às críticas: a falta de transparência das negociações (conduzidas em privado), o risco de penas demasiado leves para crimes graves, a possibilidade de arguidos inocentes se declararem culpados por medo de uma condenação mais pesada em julgamento, e a perda de direitos constitucionais - incluindo o direito ao julgamento e, frequentemente, o direito de recurso.

Da máfia à Lava Jato

A palestra expandiu o olhar para além dos Estados Unidos ao abordar a Operação Lava Jato no Brasil, onde o mecanismo da "delação premiada" - equivalente brasileiro da colaboração premiada - foi peça central no desmantelamento de uma rede de corrupção que envolveu presidentes, senadores e deputados. O orador recordou que o próprio Procurador-Geral do Brasil declarou publicamente que a colaboração de criminosos é uma ferramenta fundamental para o Estado exercer a sua função de justiça.

Lei RICO e cooperação internacional

O orador explicou a evolução da lei RICO (Racketeer Influenced and Corrupt Organizations Act), que nasceu como instrumento exclusivo contra a máfia mas hoje é usada para processar qualquer tipo de corrupção organizada. Sobre cooperação internacional, deu o exemplo da investigação à Petrobras: a SEC e o Departamento de Justiça dos EUA chegaram a um acordo em que a empresa pagou 3,5 mil milhões de dólares, dos quais 80% foram devolvidos ao Brasil e 20% ficaram nos EUA, ilustrando como os crimes financeiros globais exigem mecanismos transnacionais de recuperação de ativos.

Galeria de fotos

Don't have an account yet? Register Now!

Sign in to your account