Onze estudantes do Mestrado em Educação Especial - Domínio Cognitivo e Motor da Faculdade de Educação e Desporto realizaram mobilidade internacional em Portugal, com apoio da Câmara Municipal da Praia, para conhecer os modelos de referência em educação inclusiva

Não basta colocar uma criança numa sala de aula. É preciso garantir-lhe os apoios certos, as ferramentas certas e os profissionais certos. Foi para aprender como isso se faz, a sério, que onze estudantes do Mestrado em Educação Especial - Domínio Cognitivo e Motor da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV) viajaram até Leiria, em Portugal, numa mobilidade académica de duas semanas que os pôs em contacto directo com alguns dos mais avançados centros de educação inclusiva de Portugal. A iniciativa, promovida pela Faculdade de Educação e Desporto (FAED) com o apoio da Câmara Municipal da Praia, é a terceira edição de um programa que nasceu em 2021 e que já se tornou referência na formação especializada em Cabo Verde.
A escolha do destino não foi ao acaso. O Instituto Politécnico de Leiria, e em particular o seu Centro de Recursos para a Inclusão Digital (CRID), é uma referência reconhecida na promoção da educação inclusiva através das tecnologias de apoio. A ligação ao CRID tem raízes no próprio corpo docente do mestrado: a Professora Doutora Célia Sousa, coordenadora do CRID e docente convidada do programa, conhece bem a realidade cabo-verdiana e foi peça fundamental na construção desta ponte académica entre as duas instituições.
UMA SEMANA A TOCAR NAS TECNOLOGIAS QUE MUDAM VIDAS
Durante a primeira semana, o grupo, composto por estudantes provenientes de Santiago e de São Vicente, representando assim a diversidade geográfica do arquipélago, mergulhou no CRID. Nos dias 23, 24 e 25 de fevereiro, os mestrandos manusearam, em sessões práticas intensivas, os equipamentos tecnológicos disponíveis no centro: comunicadores alternativos, softwares de acessibilidade, dispositivos adaptados para crianças com necessidades específicas. Foi um contacto directo, sem filtros, com as ferramentas que em Portugal já são realidade nas salas de aula inclusivas.
A segunda metade da semana levou o grupo a dois agrupamentos de escolas do distrito: o Agrupamento de Correia Mateus, onde observaram respostas especializadas a crianças com multideficiência, e o Agrupamento de D. Dinis, com as suas turmas de referência para alunos surdos. Na sexta-feira, o programa incluiu ainda um encontro com as Equipas de Apoio à Educação Inclusiva dos diferentes agrupamentos de Leiria, um espaço de diálogo aberto sobre os desafios e as conquistas de um sistema que apostou, de forma decidida, na inclusão como valor fundador.
AUTISMO, PERTURBAÇÕES SENSORIAIS E A FORÇA DO TRABALHO EM REDE
A segunda semana alargou o horizonte da visita. Os mestrandos conheceram as respostas educativas específicas para crianças e jovens com Perturbações do Espectro do Autismo, no Agrupamento de Colmeias, e para crianças com deficiência visual, no Agrupamento de Domingos Sequeira. O percurso foi deliberadamente diversificado: ver como o sistema português responde a diferentes condições, em diferentes contextos escolares, dá uma perspectiva holística que nenhum manual consegue oferecer. O programa encerrou com uma visita ao Museu e ao Castelo de Leiria, um momento de imersão cultural que completou a experiência de forma mais humana e menos técnica.
O grupo foi acompanhado pelo Presidente da Faculdade de Educação e Desporto, Aleida Furtado que integrou a comitiva a par dos onze mestrandos. A mobilidade envolveu estudantes de dois polos distintos da Uni-CV, cinco de São Vicente e sete de Santiago, o que por si só reflecte o carácter nacional do programa e o seu impacto na formação de profissionais para todo o arquipélago.
CABO VERDE PRECISA URGENTEMENTE DESTES PROFISSIONAIS
O Mestrado em Educação Especial - Domínio Cognitivo e Motor arrancou em abril de 2021 e nasceu de uma constatação urgente: Cabo Verde tem uma carência grave de profissionais especializados nesta área. Com uma Constituição que garante a igualdade de oportunidades no acesso à educação e um sistema de ensino que procura avançar para a plena inclusão, o país necessita de técnicos capazes de construir, no terreno, as respostas que as crianças com necessidades educativas especiais (NEE) precisam e merecem.
A mobilidade a Leiria é, nesse sentido, é um investimento estratégico na qualidade da educação inclusiva em Cabo Verde. Cada estudante que regressou com novas competências, novas referências e novos contactos é um multiplicador potencial: um profissional que, nas escolas de Santiago ou de São Vicente, poderá fazer a diferença na vida de uma criança com multideficiência, autismo ou deficiência visual. O apoio da Câmara Municipal da Praia, parceira institucional desta edição, reforça o carácter de responsabilidade partilhada que a formação especializada exige.