
A implantação da República Portuguesa, em 1910, não trouxe a Cabo Verde a transformação social que prometia, mas abriu nas ilhas algo mais duradouro: a possibilidade de uma sociedade aprender “a pensar-se a partir de si própria”. A tese foi defendida pelo antropólogo Manuel Brito-Semedo, professor aposentado da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), no painel “Como se perde uma República”, que marcou o último dia do VII Encontro Cabo-verdiano de Língua Portuguesa, a 9 de junho, na Praia.
Brito-Semedo recordou que a notícia da proclamação da República foi recebida nas ilhas “com entusiasmo e solenidade pública”, na Praia, a proclamação foi feita pelo Governador-Geral a 6 de outubro de 1910 e, no dia seguinte, em São Vicente, a comissão municipal assumiu posição semelhante. O entusiasmo chegou ao imaginário popular: houve crianças registadas com nomes ligados ao novo regime, como Apolinário Republicano Estrela, em São Vicente.
Esse entusiasmo, sublinhou, não significava rutura com Portugal. “A expectativa dominante não era de separação, era de reconhecimento”, afirmou, lembrando que a elite intelectual cabo-verdiana pretendia uma integração “mais plena e mais digna”. É nesse horizonte que situou a célebre frase de Eugénio Tavares, “Portugueses irmãos, sim. Portugueses escravos, nunca!”, que, para o antropólogo, condensa uma sensibilidade em que “a pertença não era recusada, era reinterpretada” e “a fidelidade não excluía a crítica”.
Para Brito-Semedo, a mudança mais profunda trazida pela República foi a expansão do espaço público: multiplicaram-se as associações e a imprensa ganhou novo fôlego, com destaque para o jornal A Voz de Cabo Verde, fundado na Praia em 1911, com participação central de Eugénio Tavares. “As ilhas deixam gradualmente de ser apenas um território administrativo e passam a constituir também um território interpretado”, defendeu.
O académico revisitou ainda o nativismo cabo-verdiano do início do século XX, a afirmação dos “filhos da terra” como sujeitos capazes de administrar e produzir pensamento, e a distinção entre Pátria, o espaço político mais amplo, e Mátria, “o espaço vivido da origem, da terra concreta, da ilha”. Em vez de uma identidade fechada, argumentou, autores como Pedro Cardoso, José Lopes e Eugénio Tavares ensaiaram “uma experiência de coexistência identitária”, capaz de habitar várias pertenças em simultâneo.
A República, concluiu, “não resolveu os problemas estruturais de Cabo Verde”, as dificuldades económicas e as desigualdades persistiram, mas deixou às ilhas uma aprendizagem decisiva: “antes da independência política, houve uma independência da palavra”.