
O historiador Rui Tavares, professor visitante da Universidade Nova de Lisboa, deixou na terça-feira, 9 de junho, na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), um aviso às democracias contemporâneas: “enquanto estamos imersos no dia a dia, tendemos a ser arrogantes em relação ao que conquistámos, achando as democracias mais sólidas do que na verdade são”. A reflexão foi feita no painel “Como se perde uma República”, que encerrou o programa científico do VII Encontro Cabo-verdiano de Língua Portuguesa, no Campus de Palmarejo Grande, na Praia.
Na intervenção, em que apresentou o livro que está a concluir com o mesmo título do painel, o historiador reconstituiu os dois últimos anos da Primeira República Portuguesa (1924-1926) a partir de um conceito que considera central: o de sujeito histórico, que definiu como “aquele que não sabe como a história acabou”. “O historiador tem a vantagem de falar sabendo o desfecho”, observou, alertando para a tentação de julgar com arrogância “as pessoas de há 100 anos”, que “não eram mais estúpidas do que nós”.
Para ilustrar essa cegueira dos contemporâneos perante o futuro, Rui Tavares mostrou uma notícia do New York Times de 1924, segundo a qual Adolf Hitler, então libertado da prisão após uma tentativa de golpe, estaria “domado” e disposto a abandonar a política. “As pessoas da altura não faziam ideia de que dali a menos de dez anos ele tomaria o poder”, sublinhou.
No percurso até ao golpe militar de 28 de maio de 1926, o investigador destacou episódios que foram corroendo o regime: a disputa em torno da questão dos tabacos, que representava 10% do orçamento do Estado; a queda do chamado “Governo Canhoto”, o primeiro a incluir um ministro cabo-verdiano, Carlos Eugénio de Vasconcelos, natural da Ilha do Fogo; e o caso Alves Reis, a burla que injetou na economia o equivalente a 1% do PIB da época e lançou “uma nuvem de suspeição” sobre as instituições. Seguiu-se, em julho de 1926, a ascensão de Óscar Carmona, que ocuparia a Presidência da República durante 25 anos, mais tempo do que toda a duração da Primeira República. Quanto a António de Oliveira Salazar, recordou que era então um político quase desconhecido, descrito na imprensa de 1926 através de uma anedota: como o papagaio que “não fala, mas pensa”.
O painel contou ainda com a intervenção do antropólogo Manuel Brito-Semedo, professor aposentado da Uni-CV, que aplicou o tema ao caso cabo-verdiano. O VII Encontro Cabo-verdiano de Língua Portuguesa decorreu a 8 e 9 de junho, organizado pela Uni-CV, pela Cátedra Eugénio Tavares de Língua Portuguesa e pelo Camões – Centro de Língua Portuguesa na Cidade da Praia.