Na sessão de abertura, FCT/Uni-CV, HUAN e Ordem dos Médicos convergiram numa mensagem: combater a resistência aos antibióticos exige dados locais, diagnóstico preciso e mudança de comportamento dos prescritores, e não apenas diretivas escritas.
A cerimónia que marcou o arranque do PREPARA-M.CV abriu com as intervenções das três instituições que presidiram à sessão. Apesar das diferentes perspetivas, académica, hospitalar e deontológica, os oradores alinharam-se num ponto central: a evidência internacional serve de guia, mas só os dados gerados em Cabo Verde conseguem transformar, de forma eficaz e aceitável pela comunidade, as práticas de prescrição.
A Presidente da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Uni-CV deu as boas-vindas e destacou três aspetos do projeto: a relevância local da investigação adaptada à realidade do país, a articulação multissetorial entre o HUAN, centro de referência clínica e formativa, e a Ordem dos Médicos, garante da ética e da prescrição responsável, e o foco na educação e na mudança de comportamento. "A redução do uso inadequado de antibióticos não se faz apenas por diretivas escritas; exige formação contínua, ferramentas de apoio no dia a dia dos clínicos e sistemas de feedback", sublinhou, reafirmando o compromisso da FCT e da Uni-CV no apoio a iniciativas científicas com rigor metodológico e relevância social.
Pelo HUAN, a diretora clínica Dra. Ildina Borges descreveu a RAM como "uma ameaça muito visível quando um tratamento padrão falha numa enfermaria pediátrica ou de adultos". Recordou que as infeções respiratórias são uma das principais causas de morbilidade no país, sobretudo em crianças com menos de cinco anos, e que, sabendo-se que cerca de 80% destas infeções têm origem viral, o grande desafio reside na falta de ferramentas céleres de diagnóstico, lacuna que leva à prescrição desnecessária de antibióticos. Para o hospital, o projeto assenta em três pilares: a passagem do diagnóstico empírico para a certeza laboratorial, a capacitação contínua de médicos, enfermeiros e técnicos, e a integração dos dados na vigilância nacional, numa lógica de "Uma Só Saúde" (One Health) que cruza a saúde humana, animal e ambiental.
O Bastonário da Ordem dos Médicos de Cabo Verde, Dr. Francisco Barbosa Amado, saudou a parceria entre a Uni-CV - através do Nest.CV - e as instituições nacionais e internacionais envolvidas. Lembrou que a RAM se manifesta nas decisões diárias de prescrição e que, em pediatria, a distinção clara entre quadros virais e bacterianos é o caminho para evitar o desperdício de recursos e preservar a eficácia dos antibióticos. A Ordem reiterou a total disponibilidade para colaborar na sensibilização e mobilização dos médicos, no fomento da formação continuada e no estreitamento de pontes entre a investigação e o exercício da medicina. O Bastonário agradeceu ainda, de forma especial, a presença do Prof. Pedro Póvoa e a liderança da Prof.ª Isabel Inês Araújo na conceção do projeto.