A Universidade de Cabo Verde, presta sentida homenagem a Profª. Maria Lúcia Lepecki, uma das responsáveis pela criação da licenciatura em Estudos Cabo-verdianos e Portugueses, o embrião da Uni-CV, falecida recentemente, em Lisboa.  
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Maria Lúcia Lepecki
Pasta em punho, a mulher também se levanta e se despede. Acredita ter compreendido como e porquê surgiu o Selò. Avança para a porta, já pensando no que haveria de escrever. O que acaba de fazer neste rigoroso momento, uma hora da tarde de vinte e dois de Julho de 1988. Na cidade da Praia, República de Cabo Verde.
Assim terminou Maria Lúcia a sóbria edição fac similada de Selò Página dos Novíssimos.
A uma hora que ignoro de vinte e quatro de Julho de 2011, Maria Lúcia despede-se de nós. Na cidade de Lisboa. Brasileira de nascimento, portuguesa por opção, foi a primeira Professora Catedrática que connosco labutou, solidariamente, durantes anos, pela construção de uma utopia que se transmudou em realidade – o ensino universitário.
Professora da Faculdade de Letras, da Universidade de Lisboa, ensaísta, escritora e crítica literária consagrada, acompanha o marido, que foi presidente do Supremo Tribunal de Justiça, e leccionou na "Escola Grande". Orientou teses, escreveu em jornais, pensou a literatura cabo-verdiana, mudou mentalidades, mexeu com o nosso conformismo, foi o rosto científico da Escola de Formação de Professores do Ensino Secundário.
Esbelta, de porte altaneiro e graça intuitiva, ensinou-nos a ousar mexer no intocável. Na época, num sistema educativo sem ensino superior – chamava-se cautelosamente ensino pós-secundário –, conduziu-nos à invenção de uma licenciatura experimental em Estudos Cabo-Verdianos e Portugueses. Foi uma dupla heresia: uma licenciatura ex-ante ensino superior e a admissão do crioulo na academia. Aconteceu lá para os fins dos anos oitenta. O curso continua a ser reproduzido, todos os anos, na Universidade de Cabo Verde. Formou gerações.
Permitam-me uma lembrança pessoal desta mulher importante para o ensino superior, em três momentos, em três espaços (porque é que só homenageamos uma pessoa na celebração da morte?).
A descer as escadas no interior da Escola Grande estranhamente triste. Cogitei "o que terá acontecido à Maria Lúcia que está sempre tão alegre?". Preocupada, na expectativa de uma desgraça, perguntei em sítio mais recatado "o que é que aconteceu?" Resposta pronta: "Minina, nem queiras saber, contei na aula uma anedota e ninguém se riu." Face à minha desilusão pela pequenez da ocorrência, disse-me "Tu sabes?! aqui o amor e o humor só em crioulo". Depois fez-me uma dissertação científica sobre a língua materna...
Em Nova Iorque, casualmente, no primeiro aniversário do ataque às Torres Gémeas, encontrei a Maria Lúcia. Chamei-a aos gritos. Foi aquele abraço. Tinha ido conhecer a neta, filha do André.
Em Lisboa, há cerca de oito anos, almocei com ela na cantina da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Fui visitá-la para lhe pedir autorização para incluir a crónica "O Alambique" (jornal Tribuna, 1989) num trabalho meu, à laia de prefácio. Consentiu, mas evitou falar de tempos passados. Foi a última vez que a vi.
Em nota final, registo algumas obras e artigos publicados sobre Cabo Verde (para além das crónicas "Pomo da discórdia" que escrevia regulamente no Tribuna, 1988/89):
- "Cais-do-Sodré te Salamansa" / Recensão crítica à obra com mesmo título de Orlanda Amarílis in África: Literatura. Arte. Cultura / dir. Manuel Ferreira. - Lisboa: África Editora, Lda. - Vol. I, nº 1; ano I (Julho 1978), p. 102-103;
- "Virgens loucas" / 1971 de António Aurélio Gonçalves. In Voz di Povo. Ano XI, nº 490 (1985), p. 3;
- "Poeta de voz libertada faz canto a Cabo Verde". In Voz di Povo. Ano XIII, nº 753 (1988), p. 5;
- "História de outro tempo num micro-romance". In Voz di Povo. Ano XIII, nº 814 (1989), p. 4;
- Sobreimpressões: Estudos de literatura portuguesa e africana (1988). Lisboa: Caminho, Colecção Universitária, 35);
- Lá vem o barco, seló, seló. Praia: Instituto Caboverdeano do Livro e do Disco, 1990.

 

Maria Adriana Sousa Carvalho
Professora
Universidade de Cabo Verde
26 de Julho de 2011

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