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Lucindo Cardoso de Pina, Alumni da Uni-CV, natural da ilha do Fogo, concelho de São Filipe, filho de pais pobres, frequentou o ensino básico em Ponta Verde, e o ensino secundário em São Filipe.  Por ser filho de pais com poucas condições, começou a trabalhar muito colecionando britas para vender. Lucindo de Pina teve uma infância atribulada, e como se não bastasse, ficou órfão de pai em 2001. Apesar da situação financeira da família ser de baixa renda, Lucindo nunca desistiu do sonho de fazer seus estudos superiores no Brasil.

Ultrapassou várias barreiras, foi enganado por um familiar que prometeu ajudá-lo com documentos mostrando que poderia custear as despesas no Brasil, e acabou por ficar 2 anos na ilha do Fogo após concluir os estudos no ensino secundário. Nesse período, ele fez teste para dar aulas no ensino básico, trabalhou na construção civil, no recenseamento eleitoral e também como vendedor.   

Em 2008, ingressou no curso de Ciências Biológicas e com a ajuda da irmã, conseguiu empréstimo no banco para cobrir as despesas. 

Por ter boas notas durante o curso, Lucindo foi selecionado em 2011 para ir ao Brasil num programa de iniciação científica, que é uma parceria entre a Universidade de Cabo Verde (UNICV), a CAPES e outras Universidades Federais. Ali, teve a oportunidade de desenvolver um projeto na produção de cogumelos comestíveis na Universidade Federal de Viçosa em Minas Gerais.  

Regressou a Cabo Verde, deu continuidade ao curso e realizou estágios no Laboratório de Banco de Sangue no Hospital Agostinho Neto e na Delegacia de Saúde da Praia, e no Laboratório de Biologia na Uni-CV durante 3 meses. Após defender sua tese (monografia), prestou serviço na Uni-CV, desempenhando o cargo de assistente no Laboratório, ajudando na preparação de aulas práticas, na organização do laboratório e montagem da lista de materiais e consumíveis. Além disso, também trabalhou como assessor no gabinete de investigação, participando na escrita de uma newsletter com publicação bimensal. Em 2014, conseguiu vaga de mestrado em microbiologia na Universidade de Aveiro (Portugal), mas, por não ter conseguido bolsa, acabou por ficar na Uni-CV.

Ainda no ano 2014, foi para Tenerife nas ilhas Canárias para participar do primeiro seminário Campus África por quase um mês, onde assistiu a apresentações de diversos temas sobre doenças tropicais negligenciadas e epidemia da Ébola que assolava países do Oeste africano.  

Concorreu para o doutorado Programa de Pós-Graduação Ciência para o Desenvolvimento (PGCD), do Instituto Gulbenkian de Ciência em Portugal, mas não foi admitido. Porém, isso não o fez desistir, e foi admitido na segunda tentativa.

Em janeiro de 2015, deixou de trabalhar e começou a cursar as disciplinas de doutorado. Concluiu oito meses de aulas intensivas na Uni-CV com bolsa de Fundação para a Ciência e Tecnologia de Portugal. 

Em fevereiro de 2016, voltou para o Brasil para complementar a segunda etapa desse desafio. Entrou no Programa de doutorado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.  Tinha como objetivo inicial saber qual era o impacto dos antibióticos usados para o tratamento da tuberculose na microbiota intestinal.

 

Resumo do Projeto 

As bactérias vivem em ambientes complexos, que o tempo todo desafia suas capacidades de se adaptarem e sobreviverem nesses ambientes. O trato gastrointestinal dos mamíferos, em particular o humano, é um ambiente desafiante para as bactérias. A busca por nutrientes e espaço, compostos químicos resultantes do metabolismo, pH ácido estomacal, osmolaridade intestinal, são alguns dos desafios que uma bactéria precisa superar para se instalar no ambiente intestinal e causar doença. Para perceber essas condições ambientais, as bactérias desenvolveram, ao longo do processo evolutivo, mecanismos de comunicação sofisticados para entender as condições do ambiente em sua volta. Um desses sistemas, que é um dos mais importantes para a virulência das bactérias, é o sistema de dois componentes. Como o próprio nome já diz, é um sistema que é formado por duas proteínas: uma está na membrana da célula bacteriana e sente mudanças nas condições do ambiente externo e é ativada em função dessas mudanças (estímulos); a outra está no citoplasma da célula e recebe o sinal da primeira proteína que o ativa também. Essas proteínas ativadas regulam a transcrição de genes específicos de forma a responder e adaptar a essas mudanças no seu ambiente externo. No meu projeto, tentei entender como é que moléculas produzidas pela microbiota intestinal humana podem modular e afetar os sistemas de dois componentes de uma bactéria, que está entre as principais responsáveis por infeções gastrointestinais de origem bacteriana, Salmonella (bactéria responsável por causar a febre tifoide). Para isso, usamos pequenas moléculas (chamadas de metabólitos) produzidas por essas bactérias da flora microbiana intestinal de indivíduos saudáveis, que estão presentes nas fezes, cultivamos Salmonella em meios de cultura com adição dessas moléculas, e avaliamos como é que afetam a expressão desses genes dos sistemas de dois componentes. Para isso, usamos técnicas moleculares como RT-PCR e sequenciamento de RNA mensageiro para avaliação da expressão gênica. E nossos resultados mostraram que muitos genes importantes para a virulência de Salmonella foram regulados. Vimos também que essas moléculas afetavam as estratégias de Salmonella de sobreviver dentro de células humanas como, por exemplo, os macrófagos, um recurso usado por essa bactéria para atingir outros órgãos e causar infeção fora do intestino.  

Este trabalho é muito importante, pois, assim como uma floresta tropical, tem funções importantes e críticas para a saúde do nosso planeta, influenciando de forma direta ou indireta toda a vida na terra. Mas, por outro lado, é uma “mina ainda a ser garimpada” para a identificação de potenciais compostos com princípio ativo que são usados na medicina, como o captopril, medicamento cujo princípio ativo foi isolado da jararaca brasileira (Bothrops jararaca), é usado desde a década de 1960 no tratamento da hipertensão artéria. Esse composto é capaz de inibir os agentes naturais do organismo que elevam a pressão arterial, chamados de angiotensina 1 e 2, ao mesmo tempo que prolongam o efeito de uma molécula que mantém a pressão arterial baixa, a bradicidina (Cushman D. W. and Ondetti M. A. 1991). O potencial da microbiota intestinal humana na modulação de fatores de virulência de patógenos intestinais ainda é pouco conhecido e, se aplicamos a mesma abordagem aplicada às florestas tropicais, acreditamos que poderemos identificar compostos com potencial terapêutico. Estudos já vêm mostrando o uso da terapia de transplante fecal como uma alternativa para tratamento de pacientes com doenças intestinais crônicas, como a doença de Chron (Gutin L. et al., 2019; Sokol H. et al., 2020). Isso mostra alguns exemplos do potencial desse campo na terapia. 

Em outubro de 2017, alterou o projeto, para trabalhar com os impactos dos metabólitos intestinais humanos presentes no extrato fecal, na expressão de genes do sistema de dois componentes da bactéria patogênica intestinal, Salmonella enteria. Foi um grande desafio, por vários motivos.

Como todo projeto de pesquisa, Lucindo diz que também teve vários altos e baixos, mas conseguiu terminar e entregar a sua tese de doutorado. Com a pandemia da Covid-19, teve que adiar a defesa que estava marcada para março de 2020. Conseguiu defender e ser aprovado no dia 26 de agosto, um dia antes do seu pai completar 19 anos desde que faleceu

Ultrapassando várias fases difíceis desde a sua infância, Lucindo nunca desistiu do sonho de estudar no ensino superior no Brasil, até conseguir se formar. Aproveita para dizer que não há limites nem fronteiras para os sonhos. Para sonhar, não pagamos nada e viajamos, ainda que deitado ou encostado à cadeira de um ônibus. Sobretudo, não permita que teus sonhos morram antes que eles tenham a possibilidade de viver. 

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